sábado, 10 de dezembro de 2011

LIXO: A transformação do lixo em riqueza


O país avista a universalização da coleta de lixo. Mas a maioria dos detritos vai parar em áreas a céu aberto: ainda falta tratá-los e reaproveitá-los


Marcelo Sperandio / Coordenação: Mario Sabino
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O Brasil caminha a passos largos para, finalmente, se livrar de um problema medieval: a falta de coleta de lixo. Em 2000, 79% dos domicílios contavam com esse serviço. Hoje, o índice chega a 87% - e continua subindo. A melhora não se deve à bondade dos políticos, mas ao senso de oportunidade deles. A licitação da coleta é um terreno fértil para a corrupção. A fiscalização dos contratos é complexa e os valores envolvidos nos pagamentos, milionários. Quanto mais uma administração amplia o serviço, mais negócios lucrativos ela pode fechar. Apesar disso, a maioria das cidades ainda tem um sistema manco. Os sacos são retirados da porta das casas e atirados em lixões a céu aberto. Poucos reciclam resíduos secos ou usam aterros para confinar o lixo orgânico. 


Há exceções. Santo André, no ABC paulista, é um exemplo de gestão nesse setor. As 1 000 toneladas diárias de lixo que a cidade produz são coletadas por 31 caminhões - onze deles só para recicláveis. Os veículos são monitorados por GPS, para que nenhuma casa fique fora da varredura. Isso garante 100% de coleta - sempre seletiva, sempre porta a porta, um fato raro no país. Para atingir esse patamar, Santo André teve de reciclar, em primeiro lugar, seu modelo de tratamento de resíduos. Em 2000, ligações telefônicas automáticas informavam aos moradores o dia e a hora em que cada tipo de lixo seria recolhido. A população aderiu e passou a separar materiais. Hoje, duas cooperativas selecionam 15% dos resíduos secos e os vendem para reciclagem. Até o ano que vem, a meta é chegar a 30%. O aterro para onde segue o lixo orgânico também é eficiente: tudo o que chega é enterrado. Dois piscinões contêm o chorume, o líquido escuro produzido pela decomposição desse tipo de sujeira, e grandes escapamentos foram instalados para evitar que o gás metano - também resultado da decomposição - se acumule embaixo da terra. Com isso, o impacto ambiental é controlado. O plano, agora, é produzir etanol a partir da esterilização do lixo. 



Na Amazônia, a situação se inverte. Santarém, no Pará, tem o pior índice de coleta entre as 106 cidades analisadas: só 75% das casas têm o lixo recolhido - o restante fica pelas ruas ou é queimado em quintais. O serviço municipal é feito por sete caminhões e quarenta carroças, movidas a tração animal. Tudo é despejado em um lixão, onde toneladas de resíduos se acumulam. Só uma pequena parte é aterrada. Lá, catadores e urubus competem pelo sustento. "Lata de cerveja é o que dá mais dinheiro, mas eu separo tudo para vender: papel, vidro, plástico... Às vezes, tiro até 400 reais por mês", diz Keliane da Silva, de 19 anos, que sobrevive do que encontra no lixão. A vizinhança sofre. Quando chove, a enxurrada carrega o chorume e contamina igarapés, de onde muita gente tira água para tomar banho e lavar roupas. 



Na última década, a cidade com mais de 200 000 habitantes que mais ampliou a coleta foi Itaboraí, no Rio. Em 2000, 60% de seus domicílios eram atendidos. Hoje, são 93%. O investimento reduziu o despejo de lixo em rios e na Baía de Guanabara. Desde 2010, tudo é descartado em um aterro particular, em uma região isolada do município. Itaboraí se livrou da sujeira, mas ainda tem o desafio de reaproveitá-la. A cidade apenas engatinha na coleta seletiva. Para atingir o exemplo de Santo André, a população precisa exigir dos governantes, além da manutenção dos investimentos, o início de um programa de reciclagem. Só assim o lixo recolhido vai se transformar em riqueza.

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